março 31, 2004

folha da laranjeira.bmp

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"A Lição de Poesia"

Estamos sentados num banco todo branco
Sob o busto de Lenau

Abraçamo-nos
E entre dois beijos falamos
De poesia
Falamos de poesia
E entre dois versos abraçamo-nos

O poeta olha para longe através de nós
Através do banco branco
Através do saibro da alameda

Ele cala magnificamente
Os seus belos lábios de bronze

No jardim público de Verchatz
Aprendi pouco a pouco
O que é essencial num poema


Vasko Popa

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Vasko Popa

vasko popa.gif

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março 30, 2004

de East Coker

(...)
Dizes que repito
Algo que disse antes. Vou dizê-lo de novo.
Digo-o de novo? A fim de lá chegares,
De chegares onde estás, de saíres de onde não estás,
Tens de seguir um caminho por onde não há êxtase.
A fim de chegares àquilo que não sabes
Tens de seguir um caminho que é o caminho da ignorância.
A fim de possuíres o que não possuis
Tens de seguir o caminho do despojamento
A fim de chegares àquilo que não és
Tens de seguir pelo caminho em que não és.
E aquilo que tens é o que não tens
E onde estás é onde não estás.

T.S.Eliot

poems eliot.jpg

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T.S.Eliot 2

ts-eliot retrato de wyndham lewis b.jpg

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T.S.Eliot

t s Eliot.gif

Posted by ar-liquido at 05:43 PM | Comentários: (1)

de Little Gidding

(...)
Não desistiremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegarmos ao lugar de onde partimos
E conhecer o lugar pela primeira vez.
Através do portão desconhecido e lembrado
Quando o último confim da terra por descobrir
For o lugar que foi o começo;
Na nascente do rio mais longo
A voz da oculta queda-d'água
E as crianças na macieira
Desconhecidas, porque nunca procuradas
Mas ouvidas, meio ouvidas, na quietação
Entre duas ondas do mar.
Depressa agora, aqui, agora, sempre -
Uma condição de completa simplicidade
(Que não custa menos do que tudo)
E tudo há-de ficar bem e
Toda a espécie de coisa há-de ficar bem
Quando as línguas de fogo refluírem
Para o coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa forem um."

T.S.Eliot

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Cadeau

cadeau man ray b.jpg
Man Ray, Cadeau

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março 29, 2004

christian boltanski monument odessa 91.jpg
Christian Boltanski, Monument Odessa, 1991

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março 28, 2004

would you know me then?

"She smiled at the questions, as if to say: 'And if I answered you, would you know me then?"

Anäis Nin, Sabina

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Poema

navioscielo blog.jpg

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março 27, 2004

clube da imaginação 5

A coroa dela estava lá em cima no ar. Quem a visse tornava-se invisível. (texto colectivo)

5clube imag blog.jpg
fotografia de angela nunes

Posted by ar-liquido at 09:50 AM | Comentários: (0)

clube da imaginação 4

momentos que valem a pena

3clube imag blog.jpg
fotografia de angela nunes

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março 26, 2004

Anne Perrier, ainda

Agora deixai-me partir
Pesaria tão pouco sobre as águas
Levaria tão pouca coisa
Alguns rostos o céu de Verão
Uma rosa aberta


g le gray marine, etude de nuages  blog.jpg
Gustave Le Gray, Marine, Etude de nuages,1856-57

Posted by ar-liquido at 05:52 PM | Comentários: (1)

Dizem-me que se escondem para morrer
Mas eu digo
Que os pássaros não morrem
Que muito alto no meio da espuma
E dos turbilhões de astros do seu canto
Sobem de planeta em planeta
Até à fonte

Anne Perrier

Posted by ar-liquido at 05:45 PM | Comentários: (1)

Anne Perrier

anne perrier.gif

Para ir até ao fim do tempo
Que sapatos que sandálias de ar
Não nada
Ó dia ameno fino fio de Verão
No tornozelo

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março 25, 2004

whitman lombadas.jpg

Posted by ar-liquido at 06:58 PM | Comentários: (1)

leaves of grass blog.jpg

Posted by ar-liquido at 06:57 PM | Comentários: (1)

motherwell figure before blackness 1960 blog.jpg
R. Motherwell, Figure Before Blackness, 1960

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capa walt whitman b.jpg

Posted by ar-liquido at 06:54 PM | Comentários: (1)

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R. Motherwell, Face of the Night (for Octavio Paz)

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A partir de Paumanok

40

(...)
E ofereço tudo o que tenho.
Não pergunto quem és, para mim isso não é importante,
Não podes fazer nada, não podes ser mais do que aquilo que te dou.
Inclino-me perante quem moureja nos campos de algodão e perante
quem limpa as latrinas,
Na sua face direita deixo um beijo familiar,
E do fundo da minha alma juro que jamais o renegarei.

Nas mulheres que concebem concebo crianças mais robustas e aptas,
(Neste dia lanço as sementes de repúblicas mais arrogantes).
Àquele que morre acudo à sua porta e rodo a maçaneta,
Atiro os cobertores para os pés da cama,
Despeço o médico e o padre.

Agarro o homem que desfalece e levanto-o com irresistível vontade,
Ó desesperado, aqui tens a minha nuca,
Por Deus, não te vás abaixo!, apoia-te em mim com todo o peso.
Dilato-te com um sopro tremendo, dou-te alento,
Encho todos os quartos da casa com um exército armado,
Meus amantes, vós que do túmulo me enganam.

Dorme... eu e ele velaremos toda a noite,
Nem dúvida nem morte ousarão tocar-te com um dedo,
Abracei-te e a partir de agora pertences-me,
E quando pela manhã te levantares verás que é verdade o que te digo.

(...)

Walt Whitman

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"A pintura é um modo de pensar."

Robert Motherwell

Posted by ar-liquido at 11:20 AM | Comentários: (0)

Motherwell

motherwell blog.jpg

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março 24, 2004

espelho veneziano blog.jpg
espelho veneziano

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Os amigos de quem nos separamos

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.

Marguerite Yourcenar, in "Sistina"

Posted by ar-liquido at 12:38 PM | Comentários: (1)

Baudelaire

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Carjat, Baudelaire, 1866

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março 23, 2004

e de outras coisas mudas...

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Bonnard, 1930

Posted by ar-liquido at 06:53 PM | Comentários: (0)

e de outras coisas mudas.

(...)
Aquele cujo pensar é como a cotovia,
Rumo ao céu da manhã, tomando o seu impulso,
-Quem paira sobre a vida e sem esforço decifra
A linguagem das flores e de outras coisas mudas.

Baudelaire

Posted by ar-liquido at 06:52 PM | Comentários: (2)

março 22, 2004

Adolphe Braun

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Adolphe Braun, c. 1854

Posted by ar-liquido at 08:13 PM | Comentários: (0)

De Hipérion para Belarmino

Entre as flores estava em casa, como se fosse uma delas.

A todas chamava pelo nome, por amor dava-lhes novos nomes e sabia exactamente a duração de vida de cada uma, na alegria.

Como uma irmã, de quem, a cujo encontro vem, a cada canto, um ser amado, e cada um deles gostaria de ser o primeiro a ser saudado, assim aquela serena criatura se ocupava, absorta na sua felicidade, com o olhar e com as mãos, quando íamos passear ao prado ou à floresta.

E tudo isto não era absolutamente nada estabelecido, cultivado, mas simplesmente desenvolvido à medida que ela crescia.

Trata-se, pois, de uma certeza eterna, por todo o lado comprovada: quanto mais inocente e bela é uma alma, tanto mais familiar ela é às outras vidas felizes, a que chamamos inanimadas.

Hölderlin

Posted by ar-liquido at 08:11 PM | Comentários: (1)

Holderlin (1770-1843)

holderlin1792.jpg

Posted by ar-liquido at 07:59 PM | Comentários: (0)

para a.

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Gifford Beal, Crianças em Central Park, c. 1920

Posted by ar-liquido at 06:25 PM | Comentários: (2)

março 20, 2004

ar líquido

azul blog 2.jpg

Posted by ar-liquido at 10:13 AM | Comentários: (1)

março 19, 2004

Ela

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Elisabeth Bishop

Posted by ar-liquido at 07:59 PM | Comentários: (0)

Elisabeth Bishop

ONE ART


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Posted by ar-liquido at 07:57 PM | Comentários: (1)

Frank e Grace

"(...)
não se planeia o coração, mas
a melhor parte dele, a minha poesia, é aberta."

Frank O'Hara


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Frank O'Hara e Grace Hartigan

Posted by ar-liquido at 07:33 PM | Comentários: (0)

William Eggleston 3

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Greenville, Tennessee

Posted by ar-liquido at 10:56 AM | Comentários: (0)

William Eggleston 2

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Steele, Mississipi

Posted by ar-liquido at 10:54 AM | Comentários: (1)

William Eggleston (1934 - )

weggleston miami.jpg
Miami

Posted by ar-liquido at 10:45 AM | Comentários: (1)

Frank O'Hara (1926-1966)

"(...)
Do outro lado da rua há uma casa em construção,
abandonada à chuva. Secretamente, irei trabalhar nela."

Posted by ar-liquido at 10:42 AM | Comentários: (1)

Frank O'Hara 3

frank o hara 5.jpg

Posted by ar-liquido at 10:35 AM | Comentários: (0)

Frank O'Hara 2

To John Ashbery

I can’t believe there’s not
another world where we will sit
and read new poems to each other
high on a mountain in the wind.
You can be Tu Fu, I’ll be Po Chu-i
and the Monkey Lady’ll be in the moon,
smiling at our ill-fitting heads
as we watch snow settle on a twig.
Or shall we be really gone? this
is not the grass I saw in my youth!
and if the moon, when it rises
tonight, is empty —a bad sign,
meaning ‘You go, like the blossoms.’

Posted by ar-liquido at 09:20 AM | Comentários: (0)

Frank O'Hara

frank o hara.jpg

A Raspberry Sweater

It is next to my flesh,
that’s why. I do what I want.
And in the pale New Hampshire
twilight a black bug sits in the blue,
strumming its legs together. Mournful
glass, and daisies closing. Hay
swells in the nostrils. We shall go
to the motorcycle races in Laconia
and come back all calm and warm.


Posted by ar-liquido at 09:18 AM | Comentários: (1)

colagem de Jacques Prévert 2

sixieme commandement blog.jpg
Sixième Commandement

Posted by ar-liquido at 09:05 AM | Comentários: (0)

colagem de Jacques Prévert

les grands cerveaux prevert.jpg
"Les Grands Cerveaux"

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março 18, 2004

Black Cloud

nobugoshi araki black cloud 1997.jpg
Nobuyoshi Araki, Black Cloud, 1997

Posted by ar-liquido at 07:13 PM | Comentários: (0)

Theodore Roethke

roethke3.jpg

Posted by ar-liquido at 07:10 PM | Comentários: (0)

A Tempestade

A Tempestade

Contra o rochedo do paredão,
já eram prenúncio as ondas batendo,
enquanto sobre elas o vento gemia,
descendo da montanha,
silvando entre os eirados, sobre os socalcos ventosos;
o chiar sibilante dos fios de electricidade, o restolhar e esvoaçar das folhas,
a pequena lâmpada baloiçando e batendo dentro do candeeiro da rua.
Para onde foi toda a gente?
Vê-se na montanha uma luz.
Ao longo do molhe a maré começava a crescer
e as ondas, ainda não muito altas, mas quase,
vinham cada vez mais perto umas das outras;
cresce do mar uma densa névoa de chuva,
fazendo buracos na areia como se disparasse chumbo grosso,
o vento do mar e o vento da montanha em contenda,
destroçando a espuma das ondas e lançando-a na escuridão.
É tempo de correr para casa!
E a camisola suja de uma criança sai de rompante de uma rua e toma
o caminho da subida;
um gato sai a correr de ao pé da janela, tal como nós,
entre as árvores já brancas um pouco acima de Santa Lúcia.
Onde a porta mais pesada volta a ser aberta
e é mais fácil o nosso respirar.
Depois, o ribombar de um trovão, e logo a chuva escura a cair sobre tudo,sobre
os terraços das casas, rajadas fustigando
as paredes, as portadas das janelas, obriga
o último observador a recolher,os jogadores
a concentrar-se mais nas cartas, as suas Lachryma Christi.
Vamo-nos chegando à cama, ao colchão de palha.
Ficamos à espera e à escuta.
A tempestade parece acalmar mas logo redobra,
quase faz inclinar as árvores até ao chão,
arranca as últimas e já mirradas laranjas do pomar,
destrói os frágeis cravos.
Uma aranha apressa-se a descer de uma lâmpada que baloiça,
corre sobre a colcha e esconde-se na armação da cama.
A lâmpada acende e apaga, cada vez mais fraca.
A água ruge na cisterna.
Nós ficamos muito juntos, agarrados à almofada,
respirando profundamente, à espera
que a última grande onda galgue o paredão,
que o estrondo seco das altas vagas se abata sobre a praia,
que se oiça o estremecimento súbito do imenso rochedo a despenhar-se
e o furacão devolva aos pinheiros ainda vivos as suas farpas.

Theodore Roethke

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março 17, 2004

Ainda Prévert

prevert a escrever blog.jpg


La désordre des êtres est dans l'ordre des choses.

Jacques Prévert

Posted by ar-liquido at 04:47 PM | Comentários: (2)

Bairro Livre

prevert blog.jpg
Prévert

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.

Jacques Prévert

Posted by ar-liquido at 04:43 PM | Comentários: (1)

Jacques Prévert

jacques prevert 1900 77.jpg

Posted by ar-liquido at 04:29 PM | Comentários: (0)

março 16, 2004

Sylvia Plath e Ted Hughes

sylvia e ted.jpg

Posted by ar-liquido at 06:31 PM | Comentários: (1)

Sylvia Plath

Pela Água

Um lago negro, um barco negro, duas pessoas em papel recortado.
Para onde vão as árvores negras que bebem aqui?
As suas sombras devem cobrir o Canadá.

Das flores aquáticas sai filtrada uma luz ténue.
As suas folhas não querem que nos apressemos:
São circulares e sem relevo, cheias de conselhos obscuros.

Mundos frios agitam-se nos remos.
O espírito da escuridão está em nós, está nos peixes.
Um ramo submerso ergue uma mão pálida em despedida;

as estrelas abrem-se entre os lírios.
Não ficas cego com a mudez de tais sereias?
Este é o silêncio das almas já perturbadas.

plath.jpg
Sylvia Plath

Posted by ar-liquido at 06:28 PM | Comentários: (0)

Abbott Thayer

abbott thayer blog mesmo.jpg

Abbott Thayer, "Boy and Angel", 1918(?)

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março 15, 2004

Os navios

Da Imaginação até ao Papel. É uma difícil passagem, é um perigoso mar.
A distância parece curta à primeira vista, e embora seja assim quão longa viagem é, e quão prejudicial por vezes para os navios que a empreendem.
O primeiro prejuízo provém da natureza assaz frágil das mercadorias que os navios transportam. Nos mercados da Imaginação a maior parte das coisas e as melhores são fabricadas de vidros finos e de cerâmicas transparentes, e com todo o cuidado do mundo muitas se partem no caminho, e muitas se partem quando as desembarcam para terra. E todo o prejuízo deste género é sem remédio, porque é impensável que o navio volte atrás para recolher coisas da mesma forma. Não há hipótese de encontrar a mesma loja que as vendia. Os mercados da Imaginação têm lojas grandes e luxuosas mas não de duração longa. As suas transacções são curtas, arrematam as suas mercadorias rapidamente e liquidam de seguida. É muito raro para um navio voltar e encontrar os mesmos exportadores com os mesmos géneros.
Um outro prejuízo provém da capacidade dos navios. Partem dos portos dos continentes prósperos sobrecarregados, e depois quando se encontrarem no alto mar vêem-se obrigados a deitar fora parte da carga para salvar o todo.

Konstandinos Kavafis

Posted by ar-liquido at 09:45 PM | Comentários: (0)

Konstandinos Kavafis

kavafis 2.jpg

Posted by ar-liquido at 08:08 PM | Comentários: (2)

março 14, 2004

Konstandinos Kavafis

Vestes

Dentro de um caixote ou dentro de um móvel de ébano precioso vou pôr a guardar as vestes da minha vida.
As roupas azuis. E depois as vermelhas, as mais belas de todas. E a seguir as amarelas. E por fim de novo as azuis, mas muito mais desbotadas estas últimas do que as primeiras.
Vou guardá-las devotamente e com muita tristeza.
Quando vestir as roupas negras e quando morar dentro de uma casa negra, dentro de um quarto escuro, abrirei de vez em quando o móvel com alegria, com desejo e com desespero.
Verei as roupas e lembrar-me-ei da grande festa - que será nesse momento de todo finda.
De todo finda. Os móveis espalhados desordenadamente dentro das salas. Pratos e copos partidos no chão. Todas as velas gastas até ao fim. Todo o vinho bebido. Todos os convidados idos. Cansados alguns estarão completamente sozinhos, como eu, dentro de casas escuras - outros mais cansados terão ido dormir.

Konstandinos Kavafis

Posted by ar-liquido at 08:54 PM | Comentários: (3)

As aranhas

Os meus dias vagarosos
partilho-os com as aranhas.
A sua linearidade cintila,
são os cartógrafos do ar.

Oh, se também o meu caminho fosse
como o da aranha, um fio
segregado onde me pendurasse.
Uma rede argêntea de onde vigiasse!

Quando cai a escuridão
deixo de a ver,
mas sei que existe: imagens de estrelas
guiando o pensamento desconhecido.

E por um momento
julgo, assim, descansar
nas mãos de um deus sistemático,
uma ponta de vazio.


Lasse Soderberg

Posted by ar-liquido at 12:03 PM | Comentários: (0)

março 13, 2004

Ouvidos cheios de algodão

Primeiro tapo os ouvidos
com ambas as mãos
para não mais ouvir
o eterno sussurro.

Depois começo a encher
os ouvidos de algodão,
grandes pedaços de esquecimento.
Poderei assim escapar?

Para ficar convencido
de ter achado a solução
corto as orelhas
segundo um método experimentado.

Ei-las diante de mim
como duas conchas do mar,
cheias de eterno sussurro
e de anestesiante algodão.


Lasse Soderberg

Posted by ar-liquido at 01:44 PM | Comentários: (0)

março 12, 2004

Into my arms

christo blog.jpg
Christo,"Biscayne Bay, Miami, Florida", 1980/83

Posted by ar-liquido at 03:20 PM | Comentários: (2)

Ouvir

Into my Arms

I don't believe in a interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on yor head
To leave you as you are
and if He felt He had to direct you
then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

But I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
and make her journey bright and pure
That she will keep retourning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms


Nick Cave & The Bad Seeds
"The Boatman's call"

Posted by ar-liquido at 03:08 PM | Comentários: (0)

hands.gif

Posted by ar-liquido at 11:14 AM | Comentários: (2)

DOL-U-RON Forte 10

se voasse nestes céus frios e pudesse ser mais nuvem ou meia-lua
vermelho, ou marte, ou cabelos
e todas as coisas transparentes que preenchem o espaço
e o mar celeste,
neste centro de pedra que habito
ver-te-ia
uma
e
outra
e
outra
vez


Frederico Mira George, Dol-u-ron Forte, 2004

Posted by ar-liquido at 11:10 AM | Comentários: (1)

lua.jpg

Posted by ar-liquido at 09:47 AM | Comentários: (1)

Dol-u-ron Forte 15


o homem gentil lava a mulher deitada
o homem gentil sempre soube
que
um dia teria
de cuidar do corpo da mulher deitada
a mulher sempre esteve deitada -
a mulher não sabe comer
a mulher não sabe andar
a mulher não vê, não sabe ver
o homem gentil ainda terá que alimentar a mulher deitada
o homem transforma-se, não a olha, não a quer ver enquanto a lava e
alimenta
à volta da cama anda
um cão que se chama diego
ele espera pelos panos com o sangue do dia
o homem gentil enxota-o
mas
o cão
é cão
e quer lamber o sangue escuro das feridas da mulher deitada

não há flores no quarto
nem janelas abertas para o sol
não há perfumes nem
móveis, nem uma cadeira, nem roupões de seda, ou de algodão, ou de lã
quase nada
é um quarto quase, quase, vazio
só uma cama metálica, uma mesa de cabeceira metálica
uma mulher inerte, quase, quase, metálica;
o homem gentil que a alimenta e lava
e
um cão vulgar, farejando

Frederico Mira George, Dol-u-ron Forte

Posted by ar-liquido at 09:40 AM | Comentários: (1)

março 11, 2004

werner bischof

werner bischof 1951 india.jpg
Índia, 1951

Posted by ar-liquido at 08:59 PM | Comentários: (2)

Karl Blossfeldt

karl blossfeldt.jpg

Posted by ar-liquido at 08:16 PM | Comentários: (0)

São tão pequenas as flores de Seanu

São tão pequenas as flores de Seanu
Que quem as olha se sente um gigante.
Sou a primeira entre os teus amores,
Como jardim há pouco regado de ervas e perfumadas flores.

Ameno é o canal que tu cavaste
Pela frescura do vento norte.

Tranquilos os nossos caminhos
quando a tua mão descansa na minha em alegria.

A tua voz dá vida, como o néctar.

Ver-te é mais do que alimento e bebida.


poema de amor do antigo egipto

Posted by ar-liquido at 08:07 PM | Comentários: (1)

março 10, 2004

para os olhos de Angela

Kallima ( Java).jpg
Kallima ( Java )

Posted by ar-liquido at 07:53 PM | Comentários: (1)

O Fazer da Poesia III

"(...) E apesar de parecer estranho dizê-lo, até a vida se torna mais interessante, porque se há algo que a escrita ensina a muitos de nós é que não damos atenção suficiente às coisas, não tentamos compreendê-las de forma profunda (...)"

Ted Hughes, in "O Fazer da Poesia"

Posted by ar-liquido at 07:39 PM | Comentários: (0)

Ted Hughes

ted hughes2.jpg

Posted by ar-liquido at 07:32 PM | Comentários: (0)

O Fazer da Poesia II

(...) A poesia não é feita de pensamentos ou fantasias ocasionais. É feita de experiências que alteram o nosso corpo e o nosso espírito, ou por um só momento ou para todo o sempre. (...) O encontro com determinada palavra pode afectar-vos a tal ponto que um simples instrumento é capaz de detectar com facilidade as alterações na transpiração, na pulsação e por aí adiante, precisamente com a mesma segurança com que é possível verificar a água a crescer na boca perante a visão de uma maçã ou o súbito medo que nos faz arrepios numa casa vazia. (...)

Posted by ar-liquido at 07:03 PM | Comentários: (1)

Poema

phyllium celebicum F (Tailandia).jpg

Posted by ar-liquido at 06:51 PM | Comentários: (0)

O Fazer da Poesia

"(...) Há muitas maneiras de apanhar animais, pássaros e peixes. Passei parte do meu tempo, até cerca dos quinze anos, a praticar muitas dessas maneiras e quando o meu entusiasmo começou a esmorecer, o que depois aconteceu gradualmente, passei a escrever poemas.
Poderá pensar-se que esses dois interesses, apanhar animais e escrever poemas, nada têm em comum. Mas quanto mais olho para trás mais me convenço de que, em mim, os dois interesses formam um único. (...) Creio que, de certa maneira, vejo os poemas como uma espécie de animais. Tal como os animais, têm vida própria, querendo eu dizer com isso que existem separados das pessoas, até mesmo do seu próprio autor, nada havendo que lhes possa ser acrescentado ou retirado sem o estropiar e até sem o matar. E possuem uma certa forma de sabedoria. Há algo de muito especial que eles sabem... algo que temos muita curiosidade em conhecer. Talvez a minha intenção, afinal não tenha sido aprender tudo isso com animais e poemas mas, muito simplesmente, com coisas que, estando do lado de fora da minha vida, contêm a essência de uma vida própria.

Ted Hughes, in O Fazer da Poesia

Posted by ar-liquido at 06:50 PM | Comentários: (0)

A vida

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Jacson Pollock

Posted by ar-liquido at 02:13 PM | Comentários: (1)

A vida

Uma gota de orvalho
A vida Uma gota de orvalho
E contudo...


Issa Kobayashi

Posted by ar-liquido at 12:51 PM | Comentários: (2)

Issa Kobayashi (1763-1827)

Como elas se amam-
Possa eu renascer
Como uma borboleta


Borboletas-
Voando como se o mundo
Não tivesse fim


À sombra da ameixieira em flor
Mesmo um estranho
Deixa de o ser


O veado da montanha
Lava o focinho
No orvalho dos trevos

Anaea philumena (peru).jpg
Anea philumena ( Peru)

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março 09, 2004

(...)
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.

Walt Whitman

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Se não estiver num lugar, procura-me noutro,

rothko.jpg

Mark Rothko

Posted by ar-liquido at 02:37 PM | Comentários: (0)

52
(...)
Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

Posted by ar-liquido at 02:24 PM | Comentários: (1)

canto de mim mesmo

14
(...)
Estou enamorado daquilo que cresce lá fora,
Dos homens que vivem no meio do gado, ou dos homens que tomam o gosto ao oceano ou aos bosques,
Dos que constroem os barcos e dos que os guiam, dos que erguem os machados e os malhos, e dos cavaleiros,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.

O mais comum, vulgar, ínfimo, simples, sou Eu,
Eu à procura de oportunidades, oferecendo e esperando larga recompensa,
Embelezando-me para me entregar ao primeiro que me levar,
Sem pedir ao céu que desça quando me apetecer,
Dispersando-o livremente para sempre."

Posted by ar-liquido at 02:19 PM | Comentários: (0)

canto de mim mesmo

wwhouse.jpg
casa de w.w.

O rebento mais pequeno prova que a morte não existe realmente,
E se alguma vez existiu deu lugar à vida e não está à espera de a arrebatar,
E deixou de existir no momento em que surgiu a vida.

Tudo cresce e avança, nada se detém,
E morrer é diferente do que se pensava, e mais afortunado.

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

Posted by ar-liquido at 02:02 PM | Comentários: (0)

walt whitman

whitman_w.jpg

25
Deslumbrante e tremendo quão velozmente me mataria o amanhecer,
Se eu não pudesse, agora e sempre, oferecer ao mundo o amanhecer em mim.

Nós também nos elevamos deslumbrantes e tremendos como o sol,
Descobrimos o nosso próprio Ser, ó alma minha, no meio da calma e da frescura do dia que vem.

A minha voz persegue o que os meus olhos não alcançam,

Com a minha língua rodeio mundos e mundos.

O meu discurso é gémeo da minha visão, incapaz de se medir a si próprio,
Provoca-me sempre, e sarcasticamente diz: Walt, se conténs tanto, porque é que então não lhes dás saída?
Vem agora que não me deixarei atormentar, tu acreditas demasiado na articulação,
Não sabes, ó discurso, como se juntam os rebentos debaixo de ti?
Aguardando na penumbra, protegido pela geada,
O húmus cede aos meus gritos proféticos,
Eu fundamento as causas e equilibro-as por fim,
O meu saber são as minhas partes vivas, ele está em harmonia com o sentido de todas as coisas,
A felicidade ( que todos aqueles que me ouvem, homens ou mulheres, vão hoje mesmo procurá-la).

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

Posted by ar-liquido at 01:45 PM | Comentários: (0)

março 08, 2004

Uma boa mulher

"Eu admiro muito a minha mãe porque ela é sincera, assume os seus erros e é uma boa pessoa.
Cuida muito bem de mim, é simpática com as pessoas e está sempre disposta a ajudar.
Toda a gente gosta dela, é uma boa mulher."

joão - 8 anos

Posted by ar-liquido at 05:17 PM | Comentários: (2)

Sarah Bowdich ( 1791 - 1856 )

bowdich.jpg
in "The Fresh-Water Fishes of Great Britain"

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março 07, 2004

Eva Gerlach

Quem Toda As Coisas

Que disseste tu, qualquer coisa sobre os lúcios
cedo numa manhã de Inverno quando a escuridão
vos envolvia a ti e ao teu pai,
sentados ambos na motoreta, cada um o seu buraco no gelo
recortando, e que linha lançaste,
que anzol, isco
impróprio no balde: nem um
lúcio apanharam. Não haveria candeio,
não o teríamos depois para poisar,
com manchas de ferrugem, ou que se pendurasse.

Tudo, guardar todas as coisas
no pensamento, tempo e lugar, substância, quan-
tidade e qualidade. Ser um
deus que tudo move.
Viste algumas vezes um
parado no fundo, com a pontiaguda
boca que eles têm, manchas cinzentas.

Eva Gerlach

evagerlach.jpg
E. G.

Posted by ar-liquido at 02:23 PM | Comentários: (0)

março 06, 2004

Nush e Paul Eluard

Nush e Paul Eluard.jpg

Posted by ar-liquido at 07:29 PM | Comentários: (1)

O mundo inteiro

"(...)
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
(...)

Paul Eluard

Posted by ar-liquido at 07:26 PM | Comentários: (0)

clube da imaginação 3

Abecedários - Letra puxa Palavra

I Imagina que és uma mosca...
J Já está?
L Logo se vê!
M Manda-me uma carta.
N Não me aborreças
O Ó Xico!
P Para isso só precisas de escrever.
Q Que coisa feia!
R Rosa,
S Se não vieres levas falta.
T Terá ela conseguido?
U Um, dois, três, quatro...
V Vou ali e já volto.
X Xavier vai à escola!
Z Zebra não gosta de erva...

Vera ( 12 anos)

A A aranha é peluda
B Bonita, mas peluda
C Come muito
D Dedos, pés
E E também mãos
F Fogo! Muito come
G Gorda? Sim
H Hi, hi, hi, hi...
I Igual a muitos
J Javalis engraçados
L Linda, lindíssima,
M 'Miga do coração
N Não há nada que ela não consiga
O Oh, meu Deus
P PODEROSA...
Q Quando se irrita
R Rói tudo
S Sapatos, cadeiras...
T Tudo e mais alguma coisa, até
U Ursos a temem
V Vá lá
X Xica, não me mintas, ela até não se
Z Zanga muito...

Catarina ( 12 anos)


A A Maria bebe água,
B Bastante água.
C Começa a beber,
D Desmaia de repente.
E É levada ao hospital.
F Foi ligada à máquina,
G gigante e cinzenta.
H Horrorizada, com medo,
I Inspira e expira profundamente.
J Juntamente com a tontura,
L Levanta-se e chama a
M Mãe e o pai.
N Não estão ali.
O Olha para a rua,
P Pensa que é muito infeliz.
Q Quando chega, o médico
R Repara nela,
S Senta-a e dá-lhe um copo.
T Toma, bebe.
U Usando a palhinha,
V Vagarosamente, bebe o líquido.
X Xavier, o médico, diz-lhe:
Z "Zangada comigo? Vai-te embora para casa..."

Ana ( 12 anos)

Posted by ar-liquido at 12:35 PM | Comentários: (1)

março 05, 2004

Jaques-Henri Lartigue (1896/1986)

jaques henri lartigue em pequeno.jpg

Jaques-Henri Lartigue em pequeno, com a sua mãe, avó e a inseparável câmara fotográfica

Posted by ar-liquido at 01:58 PM | Comentários: (1)

Poesia

"A poesia é uma das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma - quer essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza."

Sophia de Mello Breyner Andresen

Posted by ar-liquido at 12:59 PM | Comentários: (1)

a imensa alegria

a imensa alegria.jpg
cristina tavares, 2003
aguarela c/ colagem

Posted by ar-liquido at 11:48 AM | Comentários: (2)

março 04, 2004

Três Rosas Amarelas - As Caixas

(...)
Não saio logo da janela. Fico ali em pé, a olhar para as luzes acesas nas casas do nosso bairro. Enquanto estou a olhar, um carro sai da rua e entra para uma casa. Acende-se a luz da entrada e alguém vem cá a fora e fica à espera.
Jill deixa de voltar as páginas do seu catálogo. -É isto que nós queremos- diz ela. -É mais como eu tinha pensado. Anda cá ver.
Mas eu não vou. Quero lá saber das cortinas.
-Que é que estás a aí a ver, querido? - diz Jill. - Conta-me.
Que é que há para contar? As pessoas lá fora beijam-se e depois entram juntas na casa. Deixam a luz acesa. Depois lembram-se, e a luz apaga-se."

Raymond Carver, no conto "As Caixas", do livro "Três Rosas Amarelas"

Posted by ar-liquido at 07:36 PM | Comentários: (2)

gustave caillebotte 1880.jpg
Gustave Caillebotte, 1880

Posted by ar-liquido at 07:28 PM | Comentários: (0)

"Para que os pormenores se tornem concretos e ganhem sentido, a linguagem usada deve ser o mais exacta e rigorosa possível. As palavras podem, mesmo, ser tão precisas que pareçam insípidas; porém, se forem bem utilizadas, farão soar todas as notas, em todos os registos."
Raymond Carver

raymond carver.gif

Posted by ar-liquido at 05:33 PM | Comentários: (3)

Três Rosas Amarelas - Intimidade

(...)
Digo-lhe adeus. Ela não diz nada. Olha para as mãos e a seguir enfia-as nos bolsos do vestido. Abana a cabeça. Entra em casa e desta vez fecha a porta.
Eu sigo pelo passeio abaixo. Ao fundo da rua, alguns miúdos dão uns toques na bola. Mas não são os meus filhos, nem tão-pouco os filhos dela. Há folhas por toda a parte, até nas sarjetas. Pilhas de folhas, para onde quer que olhe. Caem dos galhos enquanto vou caminhando. Não dou um passo que não pise folhas. Alguém devia fazer qualquer coisa. Alguém devia pegar num ancinho a tratar disto."

Raymond Carver, no conto "Intimidade", do livro "Três Rosas Amarelas"

Posted by ar-liquido at 12:49 PM | Comentários: (1)

Raymond Carver

rcarveryoung.jpg

Posted by ar-liquido at 12:41 PM | Comentários: (2)

Três Rosas Amarelas - Na Ponta da Língua

(...)
Continua de pé a questão da caligrafia. é um enigma. Mas claro que a questão da caligrafia não é o que importa. Como poderia ser, face às consequências que a carta teve?
Não a carta em si mas as coisas que lá vinham e que eu não esqueço. Não, a carta não é o essencial e há muito mais do que a escrita de uma pessoa. O "muito mais" tem a ver com pequenas coisas. Poder-se-ia dizer, por exemplo, que escolher uma esposa é escolher uma história. E se assim for, compreendo que neste momento estou fora da história - tal como os cavalos e o nevoeiro. Ou poder-se-ia dizer que a história me abandonou. Ou que vou ter que continuar sem história.Ou que a história vai agora ter que passar sem mim - a não ser que a minha mulher escreva mais cartas, ou conte a uma amiga que faça um diário, por exemplo. Então, daqui a alguns anos, alguém pode olhar de novo para esta época, interpretá-la segundo as fontes, os comentários e tiradas, silêncios e insinuações. É aqui que me ocorre que a autobiografia é a história do pobre. E que estou a despedir-me da história. Adeus, meu amor.

Raymond Carver, no conto "Na Ponta da Língua", do livro "Três Rosas Amarelas".

Posted by ar-liquido at 12:39 PM | Comentários: (0)

março 03, 2004

bonnard  1941 46.jpg
Bonnard

Posted by ar-liquido at 03:29 PM | Comentários: (1)

Elaine Feinstein, outra vez

Envelhecer

A primeira surpresa: agrada-me.
Agora, haja o que houver, algumas coisas
que eram assustadoras deixaram de o ser:

por exemplo, não morri cedo. Nem perdi
o meu único amor. Nenhum dos meus três filhos
se viu forçado a abandonar ninguém.

Não me digam que esta gratidão é complacente.
Todos nos aproximamos da mesma escuridão
que para mim é o silêncio.

Saber isto ainda torna mais vivo
o meu deleite pelas frésias de Janeiro,
pelo café quente e pelo sol de Inverno. Assim

dizemos, juntos, num momento de ternura:
cada dia que for ganho à escuridão
é tudo o que podemos celebrar.

Posted by ar-liquido at 03:13 PM | Comentários: (0)

Elaine Feinstein

Aniversário

Se eu pegasse num pequeno barco esguio
atado ao cais e esta noite
te oferecesse um peixe de alto mar

ou se pusesse óculos de aviador e asas
e descesse entre as folhas do sicómoro até ao jardim

ou se, iridiscente pela força dos planetas,
pousasse uma perna de flamingo na janela do teu laboratório

ficarias surpreendido? ou insistirias em que
tem de haver um modelo para todas as transfigurações?

Ouve, terei de segredar
ao teu próprio coração: todos somos
sobrenaturais / e em cada dia
erguemo-nos como novos seres / imprevisíveis

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1ª aula de condução

JACQUES_HENRI LARTIGUE M Folletete et son chien 1912.jpg
Jaques-Henri Lartigue, 1912

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março 02, 2004

onde Dylan escrevia?

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Posted by ar-liquido at 09:11 PM | Comentários: (0)

onde Dylan escrevia

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março 01, 2004

Dylan e Caitlin

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Posted by ar-liquido at 01:00 PM | Comentários: (1)

Sobretudo no instante em que o vento de Outubro

(..)
Sobretudo no instante em que o vento de Outubro
(há quem pretenda que te crie de uma outonal magia,
dos sonoros montes do País de Gales ou da baba das aranhas)
vem com os punhos dos bolbos flagelar a terra,
há quem pretenda que te crie com palavras sem coração.
O coração esgota-se, estremecendo com a fuga
do sangue químico, consciente de como a agitação chega.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.
Dylan Thomas

dylan thomas.jpg
Dylan Thomas

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